terça-feira, 15 de março de 2011

Coreia do Norte propõe retomar conversações sobre tema nuclear

Coreia do Norte propõe retomar conversações sobre tema nuclear

A Coreia do Norte disse a um enviado russo que visitou o país que está disposta a discutir seu programa de enriquecimento de urânio em negociações com Coreia do Sul, Estados Unidos, China, Japão e Rússia.

"A Coreia do Norte deseja negociar com as seis partes incondicionalmente", disse o ministério das Relações Exteriores em Pyongyang.

"Não temos objeção sobre a inclusão do tema de enriquecimento de urânio nas negociações", declarou um porta-voz da chancelaria norte-coreana ao vice-ministro russo das Relações Exteriores, Alexandre Borodavkin.

Em visita a Pyongyang, Borodavkin se reuniu com o chanceler Pak Ui-Chun e com outros responsáveis do regime comunista, segundo a agência sul-coreana Yonhap.

As negociações entre as seis partes - Coreia do Norte, Coreia do Sul, Rússia, Estados Unidos, Japão e China - estão paralisadas desde dezembro de 2008.

A Coreia do Norte aceitou em 2005 deter seu programa nuclear em troca de ajuda econômica, diplomática e de segurança, mas o acordo fracassou.

Pyongyang realizou testes nucleares com plutônio em 2006 e 2009, e em novembro de 2010 revelou sua unidade de enriquecimento de urânio.

A disponibilidade da Coreia do Norte para retomar as conversações entre as seis partes é dado novo no debate sobre a desnuclearização da Península Coreana. Agora a palavra está com os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão, que impõem condições para voltar a mesa de negociações, ao exigir que a Coreia do Norte assuma a culpa pelo afundamento de um navio sul coreano e pela troca de tiros entre as duas Coreias ocorrida em novembro do ano passado.

Com agências


China envia mais de US$ 4,5 milhões em ajuda humanitária ao Japão - Portal Vermelho

China envia mais de US$ 4,5 milhões em ajuda humanitária ao Japão - Portal Vermelho

segunda-feira, 14 de março de 2011

Fao alerta para risco de nova crise alimentar mundial

Fao alerta para risco de nova crise alimentar mundial

O aumento nos preços globais de gêneros alimentícios básicos eleva o risco de que a crise alimentar de 2007-2008 em países em desenvolvimento se repita, afirmou nesta segunda-feira (14) o comandante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO na sigla em inglês).

Um salto nos preços do petróleo e o rápido consumo dos estoques globais de cereais poderiam ser um prenúncio da crise de abastecimento, disse o diretor geral da FAO, Jacques Diouf, em entrevista durante uma visita aos Emirados Árabes Unidos.

"A alta dos preços aumentam as preocupações e estamos reduzindo rapidamente os estoques", disse. "Durante anos temos alertado que é preciso maior produtividade e investimento em agricultura."

O índice de preços alimentares da ONU de fevereiro aumentou pelo oitavo mês consecutivo, para o maior nível desde, pelo menos, 1990. Todos os grupos de commodities, exceto o açúcar, aumentaram no último mês.

Diouf dizia, até alguns meses atrás, que os estoques globais de cereais estavam em níveis mais saudáveis que os restritos estoques que desencadearam a crise em 2007 e 2008.

Em julho passado, os níveis de estoque estavam em um total de 100 milhões de toneladas acima que os de 2007, mas o rápido crescimento econômico em países em desenvolvimento e um retorno ao crescimento em países altamente industrializados, levaram a novas reduções.

Alguns países no norte da África e no Oriente Médio fizeram grandes compras de grãos para evitar aquele tipo de conflito, em parte estimulada pelos preços dos alimentos, que derrubou os líderes da Tunísia e do Egito.

A Coreia do Sul está buscando construir uma estratégia de reserva de grãos e planeja comprar cargas de milho e outras mercadorias, em esforço similar ao de outra nações asiáticas, preocupadas com os altos preços dos alimentos e com os conflitos sociais.

Em dezembro, o México comprou milhares de toneladas de milho no mercado futuro, para se proteger de altas dos preços de tortillas, que provocou confrontos nas ruas em 2007. "É algo racional de se fazer, para se proteger", disse Diouf.

Petróleo

O recente aumento dos preços do petróleo, que subiu para cerca de US$ 120 o barril no mês passado, está exacerbando os aumentos nos preços dos alimentos, que podem afetar a habilidade dos países em desenvolvimento de cobrir suas necessidades de importação, disse Diouf. Os preços do petróleo têm impacto nos custos de transporte e insumos agrícolas, incluindo fertilizantes.

Biocombustíveis

A FAO pediu aos países desenvolvidos que reexaminem suas estratégias de biocombustíveis -- que incluem amplos subsídios- uma vez que estes têm desviado 120 milhões de toneladas de cereais de consumo humano para produção de combustível. "Estamos aconselhando os países membros a revisitarem suas políticas", disse Diouf. "Contar com mais energia renovável não significa que você precisa produzir mais biocombustível."

Países desenvolvidos dão US$ 13 bilhões anualmente em subsídios e proteção, para encorajar a produção de biocombustíveis, disse Diouf. Nos Estados Unidos, os estoques de milho chegaram a mínimas de 15 anos, enquanto maiores parcelas da safra são utilizadas na produção de etanol.

Safra

Evitar outra crise alimentar depende dos rendimentos da safra na próxima temporada de colheita, bem como do impacto do crescimento econômico sobre a demanda, segunda Diouf. Porém, ele também afirmou que o aumento do preços dos alimentos e do petróleo podem ter efeito prejudicial no crescimento.

Ainda é cedo para determinar se o recente terremoto e tsunami no Japão, maior importador de grãos do mundo, terá qualquer efeito na oferta global ou na demanda por produtos agrícolas, acrescentou Diouf.

Fonte: Portal UOL/Reuters

Brasil e Coreia do Norte celebram 10 anos de laços diplomáticos

Brasil e Coreia do Norte celebram 10 anos de laços diplomáticos

Em uma cerimônia realizada na embaixada da República Popular Democrática da Coreia em Brasília, dia 11, foram comemorados os dez anos do estabelecimento de laços diplomáticos entre o Brasil e a Coreia do Norte.

Na ocasião, o Embaixador coreano Ri Hwa Gun saudou os convidados presentes na pessoa do ministro Francisco Mauro Brasil de Holanda, do Itamaraty, dizendo que o governo de seu país estava acompanhando com atenção o desenvolvimento das relações diplomáticas entre os dois países e dois povos. Entre os participantes do evento estava o secretário de Comunicação do PCdoB, José Reinaldo Carvalho.

Para concretizar esta afirmação o embaixador lembrou que o líder Kim Jong Il havia dado instruções para que a RPD da Coreia apoiasse o Rio de Janeiro – na época em que a cidade postulou abrigar os jogos da Olimpíada em 2016 – e que recentemente decidiu pelo apoio ao nome do de Graziano Silva por sua candidatura como diretor geral da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

O embaixador Ri Hwa Gun destacou, igualmente, o fato de que um dos últimos atos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente do governo brasileiro, no dia 30 de dezembro passado, foi o de assinar um decreto autorizando a envio de dezenas de toneladas de alimentos para a RPD da Coreia, num gesto de solidariedade e cooperação importante para com o país asiático.

O embaixador procurou também fazer um balanço breve dos avanços obtidos nestes dez anos de relações diplomáticas, lembrando que há seis anos foi instalada a Embaixada da Coreia do Norte no Brasil e que em julho de 2009 foi a vez de o Brasil inaugurar sua embaixada em Pyongyang. Em maio daquele mesmo ano, o chanceler coreano esteve em visita ao Brasil e em novembro foi assinado um Acordo de Cooperação Econômica e Técnica entre os dois governos. Outros documentos estão em processo de consideração pelos governos coreano e brasileiro nos campos de esporte, cultura e de transporte marítimo.

Futebol feminino


A área esportiva foi a que mereceu mais atenção por parte do embaixador no evento. Ele destacou que o que se comenta na Coreia – sobre a última Copa do Mundo realizada na África do Sul – “é que o Brasil conseguiu fazer apenas dois gols na equipe de futebol coreana... em consideração às boas relações de amizade entre nossos dois países”, completou o embaixador. Ri Hwa Gun relatou que o time do Clube Atlético de Sorocaba, uma cidade do interior do estado de São Paulo, já visitou a Coreia duas vezes.

O time de futebol feminino da RPD da Coreia, por sua vez, esteve no Brasil do último dia 27 de janeiro até o dia 2 de março para treinar e promover jogos de amizade com times femininos brasileiros, como parte de sua preparação para o Campeonato Mundial de Futebol Feminino a ser realizado em futuro próximo. O embaixador não se esqueceu de registrar o gol da jogadora Marta, do Brasil, que decidiu um dos quatro jogos realizados durante a visita do time coreano.

Ainda na esfera esportiva, o embaixador revelou que mais de 60 jogadores da Seleção de Esporte Militar do Exército Popular da Coreia irão participar dos Jogos Militares Mundiais na cidade do Rio de Janeiro em julho deste ano.

Cooperação na agricultura

É no campo da agricultura, disse por fim o embaixador em sua preleção, que as ações do Brasil e Coreia revelam uma ampla perspectiva. Em outubro do ano passado, relatou o embaixador, uma delegação brasileira chefiada pela conselheira Cynthia Bugané visitou seu país e discutiu o aprofundamento da cooperação na área da agricultura. Em seguida, a convite da Embrapa, técnicos agrícolas coreanos visitaram o Brasil interessados especialmente no desenvolvimento de experiências no cultivo da soja.

Encerrando sua apresentação, o embaixador agradeceu ao Ministro Francisco Mauro Holanda, à Embrapa, aos amigos lá presentes com destaque para os membros do Grupo Parlamentar, Iberê, do Cebrapaz-DF, a presidente do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes e o PCdoB, representado por José Reinaldo Carvalho.


De Brasília,
Pedro de Oliveira

Renato Rabelo: Nos 128 anos da morte de Marx...

14 de Março de 2011 - 10h57
Renato Rabelo: Nos 128 anos da morte de Marx...

Em livro publicado no início deste ano pela editora Little, Brown na Inglaterra, sob o título de Como mudar o mundo (How to Change de World) o escritor marxista Eric Hobsbawm recupera – logo em seu primeiro capítulo (Marx, Hoje) – um evento chamado Semana Judaica do Livro, realizado em 2007, em Londres, duas semanas antes do dia em que se lembra a morte de Karl Marx, em 14 de março.

Por Renato Rabelo*, em seu blog

O tal evento ficava bem perto de onde se localiza a área da capital londrina mais associada à vida do fundador do marxismo: o chamado Round Reading Room (a sala de leitura principal) do Museu Britânico, situado na Great Russell St.

Naquela ocasião, dois diferentes pensadores – Jacques Attali e o próprio Hobsbawm – foram convidados a fazer uma homenagem póstuma em memória de Marx. Em seu texto, o autor argumenta que não se poderia dizer que Marx havia sido coberto de insucessos em 1883, pois seus escritos começavam a causar impacto na Alemanha e especialmente entre os intelectuais russos da época, além de galvanizar um movimento social liderado por seus discípulos que estava em curso no ambiente sindical e trabalhista alemão.

Mas, de fato, havia pouco material disponível que revelasse o trabalho de toda uma vida. Ele escrevera alguns textos brilhantes e o tronco principal de sua mais importante obra, O Capital, texto sobre o qual dedicara os últimos dez anos de sua vida, enfrentando grandes dificuldades. “Que obras?”, perguntou Marx de forma ácida quando um visitante o questionara a respeito de seus trabalhos... relembrou Hobsbawm em sua palestra. O esforço político organizativo mais significativo de Marx desde a débâcle da revolução de 1848, a então chamada Primeira Internacional de 1864–73, havia se desfeito. Além disso, ele não conseguira alcançar uma posição de destaque na vida política e intelectual da Inglaterra, onde havia vivido quase metade de sua vida, como exilado.

E apesar de tudo isso, disse Hobsbawm, que extraordinário sucesso póstumo! Após vinte e cinco anos de sua morte, os partidos políticos das classes trabalhadoras européias fundados em seu nome – ou que se diziam inspirados por Marx – conquistaram de 15 a 47% dos votos nos países que adotavam eleições democráticas – com a única exceção da Inglaterra. Depois de 1918, continuou ele, a maior parte destes partidos se tornou partícipe de governos, não apenas partidos de oposição, e permaneceram como tais mesmo após o fim do fascismo, apesar de que muitos deles ansiarem por renegar sua origem... Todos eles ainda mantêm sua organização em funcionamento.

Neste meio tempo, discípulos de Marx criaram grupos revolucionários em países não-democráticos e no Terceiro Mundo. Passados setenta anos da morte de Marx, um terço da humanidade vivia sob regimes comandados por partidos comunistas que se propunham representar as ideias e aspirações marxistas. Deste terço do planeta, hoje pelo menos 20% ainda se declaram socialistas, apesar de que os partidos no poder, com algumas exceções, tenham dramaticamente alterado suas políticas – no entendimento de Hobsbawm. Em resumo, diz ele, se algum pensador deixou sua marca indelével no século XX, esta figura foi Marx.

Percorrendo as ruelas do cemitério de Highgate, onde estão depositados os restos mortais de dois filósofos do século dezenove – Karl Marx e Herbert Spencer – nota-se que curiosamente eles estão colocados frente a frente. Quando ambos estavam vivos, Herbert era conhecido como o Aristóteles da sua época, e Karl um sujeito que vivia na periferia de Hampstead à custa dos recursos de um amigo seu... Hoje em dia ninguém sabe que Spencer está enterrado lá, enquanto peregrinos do Japão e da Índia visitam o túmulo de Karl Marx e exilados comunistas iranianos e iraquianos insistem em ser queimados sob sua memória.

Hobsbawn relativiza a pesquisa realizada entre os ouvintes e telespectadores da BBC, a rede pública de informação britânica, que colocou Karl Marx como o maior filósofo de todos os tempos, mas lembrou em seu arrazoado que se colocarmos o nome de Marx na ferramenta de busca do Google, ele permanece com o maior número de referências, apenas superado por Darwin e Einstein, mas muito à frente de Adam Smith e Freud.

O autor do livro lançado, ainda sem tradução para o português, lembrou naquele ato que o grande interesse na obra de Marx, de forma contraditória, ganhou grande impulso recentemente com o desencadeamento da grande crise econômica e financeira a partir do epicentro nos Estados Unidos. Contou, então, que encontrara com George Soros e que este lhe havia perguntado o que pensava sobre Karl Marx. Ao que Hobsbawm – sabedor das profundas diferenças de visão entre ambos – verbalizou uma resposta ambígua qualquer. Soros acabou dizendo, em seguida, que “há 150 anos aquele homem descobriu algo sobre o capitalismo que precisamos levar em conta atualmente”. Logo depois deste fato, Hobsbawm começou a perceber um número crescente de intelectuais que nunca haviam se apresentado como de esquerda fazer referências às obras marxistas. Como Jacques Attali, seu companheiro de seminário naquele dia, autor de obra sobre a vida e o estudo desenvolvido por Marx.

Por fim, Hobsbawm lembrou que o jornal conservador inglês Financial Times, de outubro de 2008, estampou na primeira página o título: "Capitalismo em convulsão", não restara dúvidas que Marx voltava à cena pública. Enquanto o capitalismo atravessa uma de suas piores crises desde a década de 1930, ele provoca o reaparecimento de seu pensamento. Por outro lado, segundo o autor, o Marx do século 21 será, certamente, bem diferente do Marx do século 20.


* Renato Rabelo é presidente Nacional do Partido Comunista do Brasil

Igreja do México acusa Estados Unidos por violência no país - Portal Vermelho

Igreja do México acusa Estados Unidos por violência no país - Portal Vermelho

domingo, 13 de março de 2011

Tragédias naturais como do Japão expõem perda da noção de limite

Tragédias naturais como do Japão expõem perda da noção de limite

Nas catástrofes atuais, parece que vivemos um paradoxo: se, por um lado, temos um desenvolvimento vertiginoso dos meios de comunicação, por outro, a qualidade da reflexão sobre tais acontecimentos parece ter empobrecido. A humanidade está bordejando todos os limites perigosos do planeta Terra e se aproxima cada vez mais de áreas de risco. A ideia de limite se perdeu e a maioria das pessoas não parece muito preocupada com isso.

por Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior

No dia 1° de novembro de 1775, Lisboa foi devastada por um terremoto seguido de um tsunami. A partir de estudos geológicos e arqueológicos, estima-se hoje que o sismo atingiu 9 graus na escala Richter e as ondas do tsunami chegaram a 20 metros de altura. De uma população de 275 mil habitantes, calcula-se que cerca de 20 mil morreram. Além de atingir grande parte do litoral do Algarve, o terremoto e o tsunami também atingiram o norte da África. Apesar da precariedade dos meios de comunicação de então, a tragédia teve um grande impacto na Europa e foi objeto de reflexão por pensadores como Kant, Rousseau, Goethe e Voltaire. A sociedade europeia vivia então o florescimento do Iluminismo, da Revolução Industrial e do Capitalismo. Havia uma atmosfera de grande confiança nas possibilidades da razão e do progresso científico.

No Poème sur le desastre de Lisbonne (“Poema sobre o desastre de Lisboa”), Voltaire satiriza a ideia de Leibniz, segundo a qual este seria “o melhor dos mundos possíveis”. “O terremoto de Lisboa foi suficiente para Voltaire refutar a teodiceia de Leibniz”, ironizou Theodor Adorno. “Filósofos iludidos que gritam, ‘Tudo está bem’, apressados, contemplam estas ruínas tremendas” – escreveu Voltaire, acrescentando: “Que crimes cometeram estas crianças, esmagadas e ensanguentadas no colo de suas mães?”

Rousseau não gostou da leitura de Voltaire e responsabilizou a ação do homem, que estaria “corrompendo a harmonia da criação”. "Há que convir... que a natureza não reuniu em Lisboa 20 mil casas de seis ou sete andares, e que se os habitantes dessa grande cidade se tivessem dispersado mais uniformemente e construído de modo mais ligeiro, os estragos teriam sido muito menores, talvez nulos", escreveu.

Já Kant procurou entender o fenômeno e suas causas no domínio da ordem natural. O terremoto de Lisboa, entre outras coisas, acabará inspirando seus estudos sobre a ideia do sublime. Para Kant, “o Homem, ao tentar compreender a enormidade das grandes catástrofes, confronta-se com a Natureza numa escala de dimensão e força transumanas que, embora tome mais evidente a sua fragilidade física, fortifica a consciência da superioridade do seu espírito face à Natureza, mesmo quando esta o ameaça”.

A tragédia que se abateu sobre Lisboa, portanto, para além das perdas humanas, materiais e econômicas, impactou a imaginação do seu tempo e inspirou reflexões sobre a relação do homem com a natureza e sobre o estado do mundo na época. Uma época, cabe lembrar, onde os meios de comunicação resumiam-se basicamente a algumas poucas, e caras, publicações impressas, e à transmissão oral de informações, versões e opiniões sobre os acontecimentos. Nas catástrofes atuais, parece que vivemos um paradoxo: se, por um lado, temos um desenvolvimento vertiginoso dos meios de comunicação, por outro, a qualidade da reflexão sobre tais acontecimentos parece ter empobrecido, se comparamos com o tipo de debate gerado pelo terremoto de Lisboa.

A espetacularização das tragédias e a perda da noção de limite

Em maio de 2010, em uma entrevista à revista Adverso (da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o geólogo Rualdo Menegat, professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS, criticou o modo como a mídia cobre, de modo geral, esse tipo de fenômeno.

“Ela espetaculariza essas tragédias de uma maneira que não ajuda às pessoas entenderem que há uma manifestação das forças naturais aí e que nós precisamos saber nos precaver. A maneira como a grande imprensa trata estes acontecimentos (como vulcões, terremotos e enchentes), ao invés de provocar uma reflexão sobre o nosso lugar na natureza, traz apenas as imagens de algo que veio interromper o que não poderia ser interrompido, a saber, a nossa rotina urbana. Essa percepção de que nosso dia a dia não pode ser interrompido pela manifestação das forças naturais está ligada à ideia de que somos sobrenaturais, de que estamos para além da natureza”.

Para Menegat, uma das principais lacunas nestas coberturas é a ausência de uma reflexão sobre a ideia de limite. É bem conhecida a imagem medieval de uma Terra plana, cujos mares acabariam em um abismo. Como ficou provado mais tarde, a imagem estava errada, mas ela trazia uma noção de limite que acabou se perdendo. “Embora a imagem estivesse errada na sua forma, ela estava correta no seu conteúdo. Nós temos limites evidentes de ocupação no planeta Terra. Não podemos ocupar o fundo dos mares, não podemos ocupar arcos vulcânicos, não podemos ocupar de forma intensiva bordas de placas tectônicas ativas, como o Japão, o Chile, a borda andina, a borda do oeste americano, como Anatólia, na Turquia”, observa o geólogo.

Não podemos, mas ocupamos, de maneira cada vez mais destemida. O que está acontecendo agora com as usinas nucleares japonesas atingidas pelo grande terremoto do dia 11 de março é mais um alarmante indicativo do tipo de tragédia que pode atingir o mundo globalmente. O que esses eventos nos mostram, enfatiza Menegat, é a progressiva cegueira da civilização humana contemporânea em relação à natureza. A humanidade está bordejando todos os limites perigosos do planeta Terra e se aproxima cada vez mais de áreas de risco, como bordas de vulcões e regiões altamente sísmicas. “Estamos ocupando locais que, há 50 anos, não ocupávamos. Como as nossas cidades estão ficando gigantes e cegas, elas não enxergam o tamanho do precipício, a proporção do perigo desses locais que elas ocupam”, diz ainda o geólogo, que resume assim a natureza do problema:

"Estamos falando de 6 bilhões e 700 milhões de habitantes, dos quais mais da metade, cerca de 3,7 bilhões, vive em cidades. Isso aumenta a percepção da tragédia como algo assustador. Como as nossas cidades estão ficando muito gigantes e as pessoas estão cegas, elas não se dão conta do tamanho do precipício e do tamanho do perigo desses locais onde estão instaladas. Isso faz também com que tenhamos uma visão dessas catástrofes como algo surpreendente".

A fúria da lógica contra a irracionalidade

Como disse Rousseau, no século XVIII, não foi a natureza que reuniu, em Lisboa, 20 mil casas de seis ou sete andares. Diante de tragédias como a que vemos agora no Japão, não faltam aqueles que falam em “fúria da natureza” ou, pior, “vingança da natureza”. Se há alguma vingança se manifestando neste tipo de evento catastrófico, é a da lógica contra a irracionalidade. Como diz Menegat, a Terra e a natureza não são prioridades para a sociedade contemporânea. Propagandas de bancos, operadoras de cartões de crédito e empresas telefônicas fazem a apologia do mundo sem limites e sem fronteiras, do consumidor que pode tudo.

As reflexões de Kant sobre o terremoto de Lisboa não são, é claro, o carro-chefe de sua obra. A maior contribuição do filósofo alemão ao pensamento humano foi impor uma espécie de regra de finitude ao conhecimento humano: somos seres corporais, cuja possibilidade de conhecimento se dá em limites espaço-temporais. Esses limites estabelecidos por Kant na Crítica da Razão Pura não diminuem em nada a razão humana. Pelo contrário, a engrandecem ao livrá-la de tentações megalomaníacas que sonham em levar o pensamento humano a alturas irrespiráveis. Assim como a razão, o mundo tem limites. Pensar o contrário e conceber um mundo ilimitado, onde podemos tudo, é alimentar uma espécie de metafísica da destruição que parece estar bem assentada no planeta. Feliz ou infelizmente, a natureza está aí sempre pronta a nos despertar deste sono dogmático.